Beatriz Moura Batista1; Luis Ronan Marquez Ferreira de Souza2
DOI: 10.5935/2965-1980.v5e2026096
Resumo
Feminino, 29 anos, com exame clínico e propedêutica laboratorial sem alterações significativas. Realizou tomografia computadorizada que evidenciou pneumoperitônio e pneumatose cistoide intestinal, sendo possível manejo terapêutico conservador seguro. Esse caso reforça a importância da radiologia na distinção dos casos cirúrgicos e não cirúrgicos de pneumoperitônio.
HISTÓRICO CLÍNICO:
Feminino, 29 anos, compareceu ao pronto atendimento com queixa de disúria e lombalgia há 3 dias. Exame físico inocente. Foi submetida a tomografia computadorizada (TC) de tórax e abdome total, evidenciando pneumoperitônio e cistos de conteúdo gasoso na parede intestinal. Nesse caso, a estabilidade clínica e radiológica permitiu manejo conservador seguro.
ACHADOS RADIOLÓGICOS:
As TCs de tórax e abdome evidenciaram focos de pneumoperitônio no abdome superior (Figura 1) e conteúdo gasoso intramural de aspecto cístico na flexura esplênica do cólon (Figuras 2, 3 e 4), com aspecto de “favo de mel”, compatível com pneumatose cistoide intestinal.
DISCUSSÃO:
Pneumoperitônio é definido universalmente como a presença de ar livre intraperitoneal. Na grande maioria dos casos, é resultado de uma perfuração de víscera oca intra-abdominal, cursando com sinais de peritonite, o que pode exigir abordagem cirúrgica imediata [1-5].
Quando não há evidência de perfuração visceral, é denominado pneumoperitônio espontâneo. Nesse contexto, pode ser causado por condições intratorácicas (barotrauma, etc.), intraabdominais (pneumatose cistoide intestinal, procedimentos cirúrgicos recentes, etc.), ginecológicas (relação sexual, etc.) e iatrogênicas (procedimentos endoscópicos e reanimação cardiopulmonar). Finalmente, há casos em que a causa subjacente não é determinada, sendo classificados como idiopáticos [1-5].
A pneumatose cistoide intestinal (PCI), apesar de rara, representa a etiologia mais comum de pneumoperitônio espontâneo [1, 3]. É caracterizada pela presença de cistos de conteúdo gasoso nas camadas submucosa e subserosa da parede intestinal [5-10]. Do ponto de vista epidemiológico, afeta principalmente adultos de meia-idade, sendo o cólon o sítio mais comum de envolvimento [7].
A patogênese da PCI não é totalmente elucidada, mas vários mecanismos foram sugeridos, como aumento da pressão intraluminal intestinal, cirurgia, farmacoterapia (esteroides e imunossupressores), quimioterapia, desnutrição, disbiose, doenças autoimunes (esclerodermia), doenças inflamatórias e doenças pulmonares, como doença pulmonar obstrutiva crônica e asma [6-10].
Os sintomas podem incluir manifestações gastrointestinais inespecíficas, como dor, distensão abdominal e náuseas. Porém, a maioria dos pacientes é assintomática e a PCI é detectada incidentalmente [7, 10]
A TC é a modalidade de escolha para o diagnóstico, devido à maior sensibilidade na detecção de gás intramural e na identificação de causas subjacentes. Do ponto de vista de imagem, a pneumatose intestinal de natureza benigna cria um padrão cístico, enquanto a pneumatose intestinal patológica tende a apresentar um padrão mais linear [6, 11]. Na PCI, especificamente, o achado consiste em cistos gasosos aglomerados na parede intestinal, com aspecto semelhante a “favo de mel” [7].
O diagnóstico diferencial inclui patologias potencialmente fatais que cursam com pneumatose intestinal, como a isquemia intestinal [6-10]. Portanto, quando mal diagnosticada, a PCI pode levar à realização de propedêutica invasiva e a procedimentos cirúrgicos desnecessários. Dessa forma, a radiologia, em conjunto com os dados clínicos, desempenha papel fundamental na definição do manejo terapêutico desses pacientes [1, 4, 6, 9, 11]
O tratamento conservador costuma ser bem-sucedido na pneumatose cistoide intestinal, uma vez que a maioria dos pacientes não apresenta sinais clínicos ou laboratoriais de gravidade. No entanto, uma pequena parcela pode desenvolver complicações, como ruptura dos cistos -determinando pneumoperitônio sem sinais de irritação peritoneal - e obstrução da luz intestinal. Nesses casos, é necessária uma terapêutica individualizada [6, 7, 10, 11] .
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
Úlcera péptica perfurada;
Isquemia intestinal;
Inflamação/ infecção da parede intestinal.
O QUE APRENDI COM ESTE CASO?
Existem etiologias benignas e patológicas de pneumoperitônio e de pneumatose intestinal. Esses casos exigem abordagens terapêuticas distintas, que englobam desde um manejo conservador a uma abordagem cirúrgica imediata. Portanto, é essencial um diagnóstico correto para possibilitar uma conduta adequada para cada caso. A TC é a modalidade diagnóstica de escolha nesse contexto. Dessa forma, em conjunto com os dados clínicos e laboratoriais, a radiologia desempenha papel essencial na definição terapêutica, contribuindo para a segurança do paciente e para que abordagens cirúrgicas sejam bem indicadas.
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Artigo recebido em quarta-feira, 15 de outubro de 2025
Artigo aprovado em quinta-feira, 9 de abril de 2026
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