• ISSN (On-line) 2965-1980

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Tórax

Pneumoconiose relacionada ao mármore: relato de caso

Carolina Galhós de-Aguiar; Priscyla Rocha da Silva; Jennifer Crispim Silva; Milene Caroline Koch

DOI: 10.5935/2965-1980.v4e20250069

Resumo

Homem de meia idade, marmorista por 29 anos, apresentou perda ponderal, tosse seca, sibilância e dispneia progressiva. A tomografia computadorizada (TC) de tórax revelou consolidações peri-hilares bilaterais, nódulos e micronódulos, bronquiectasias e linfonodomegalias mediastinais. Biópsia transbrônquica identificou infiltrado inflamatório intersticial com material birrefringente, sugerindo pneumoconiose relacionada à exposição ocupacional.

HISTÓRICO CLÍNICO

Paciente masculino, 45 anos, que trabalhara como marmorista por 29 anos, atendido para investigação de perda ponderal, tosse seca, sibilância, dispneia aos esforços, ortopneia e astenia, progressivos desde 2021. Negava febre ou sudorese noturna. Relatava histórico de asma até os 12 anos, uso de broncodilatador e contato domiciliar com pássaros.

 

ACHADOS RADIOLÓGICOS

Raios-x de tórax (figura 1) realizadas para investigação do quadro demonstraram lesão reticulada grosseira difusa bilateral, além de consolidações alveolares e aumento dos hilos pulmonares relacionado a linfonodos.

TC de tórax (figuras 2-5) realizada durante a internação evidenciou extensas consolidações heterogêneas peri-hilares bilaterais e simétricas, com predomínio nos campos pulmonares médios e superiores (figura 2), associadas a múltiplos nódulos de distribuição randômica e micronódulos, por vezes com distribuição perilinfática (figura 3). Havia ainda bandas parenquimatosas, bronquioloectasias, espessamento septal liso e áreas de aprisionamento aéreo (figura 4). Notavam-se também linfonodomegalias mediastinais, algumas de aspecto heterogêneo e confluente e com pequenas calcificações de permeio (figura 5), e ectasia do tronco das artérias pulmonares.

 

DISCUSSÃO

As pneumoconioses são doenças pulmonares decorrentes da inalação de partículas inorgânicas, comuns em ambientes ocupacionais como mineração e construção. A exposição prolongada a materiais como sílica, carvão e, mais raramente, o mármore, leva à deposição dessas partículas nos pulmões, gerando resposta inflamatória, que pode evoluir para fibrose [1]. Predominantes em países em desenvolvimento, podem comprometer a função respiratória de modo significativo, forçando muitos trabalhadores a deixarem suas atividades laborais [2,3]. Dada sua relevância, destaca-se o papel essencial do radiologista no diagnóstico precoce e monitoramento dessas doenças O mármore é uma rocha composta principalmente de calcita, serpentina e dolomita, minerais ricos em carbonato de cálcio e magnésio, comumente utilizada no setor de construção civil e escultura. Atua também como agente clareador em produtos como pastas de dente, tintas e papel. A poeira de mármore pode também conter sílica livre - composto sabidamente tóxico ao sistema respiratório. Além de desencadear uma resposta inflamatória significativa, a inalação da poeira altera a viscosidade do muco, favorecendo a formação de “plugs” mucosos obstrutivos [3,4]. Essa combinação de fatores gera apresentações clínicas e imagiológicas variadas. Os relatos da literatura médica indicam que a pneumopatia relacionada ao mármore está relacionada a sintomas respiratórios como dispneia, tosse seca, sibilância, dor torácica e hipoxemia e ocorre com maior frequência em trabalhadores expostos por mais de 15 anos, podendo atingir pacientes em idades mais jovens, com início mais precoce em comparação a outras pneumoconioses, como a silicose [4,5,6]. Os achados de imagem incluem nódulos pulmonares difusos, bilaterais e de tamanhos variados, podendo ser confluentes, enfisema e linfonodomegalia com calcificações de permeio, podendo haver também fibrose [5,6,7]. Em alguns casos, a imagem apresenta pseudoplacas pleurais, num padrão conhecido como calcicose, ou proteinose alveolar - caracterizada classicamente por pavimentação em mosaico e associada à consolidação [7,8]. O padrão espirométrico costuma ser obstrutivo, mas há relatos de padrões restritivos e mistos [5,6]. Para o diagnóstico realizado, foi fundamental não só uma história clínica detalhada, com ênfase na exposição a fatores de risco, além de exames de imagem, padrões de imagem e espirometria, conforme acima descrito. Na literatura, descreve-se a importância do suporte do estudo anatomopatológico, que revela achados de reação granulomatosa de corpo estranho, com partículas fluorescentes birrefringentes sob luz polarizada, ocorrido no caso detalhado [8]. Descreve-se também que a espectroscopia de raios X por dispersão em energia (EDX) pode ser útil, permitindo a análise dos componentes específicos da poeira depositada no pulmão, como cálcio, sílica e alumínio [6].

 

DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS

• Silicose

• Sarcoidose

• Doenças pulmonares intersticiais.

O QUE EU APRENDI COM ESSE CASO

Durante a elaboração deste caso, exploramos o diagnóstico das pneumoconioses, enfatizando a importância do acompanhamento por uma equipe multidisciplinar. A raridade da etiologia relacionada ao mármore despertou nosso interesse e favoreceu o aprendizado. Com base em uma história clínica detalhada que destaca a exposição ocupacional, observamos a relevância da análise minuciosa dos padrões de imagem para o diagnóstico diferencial. A radiologia desempenha papel crucial, ajudando a restringir o diagnóstico, identificando, por exemplo, um padrão nodular de acometimento. As características de distribuição e confluência contribuem para a subclassificação dos padrões de acometimento, refinando as hipóteses diagnósticas. Além disso, o diagnóstico por imagem auxilia na realização de biópsias representativas. Por fim, destacamos a importância do estudo anatomopatológico neste caso infrequente, que permitiu caracterizar a resposta inflamatória e a natureza do material depositado nos pulmões.

 

REFERÊNCIAS

1. Meirelles GSP, Bagatin E. Pneumoconioses. In: Silva CIS, Muller NL, editores. Tórax - Série CBR. 2a ed. São Paulo: Elsevier; 2016. p. 455-461.

2. King T. Approach to the adult with interstitial lung disease: clinical evaluation [homepage na Internet]. UpToDate. Acessado em 24/10/2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-the-adult-with-interstitial-lung-disease-clinical-evaluation

3. Butt IM, Mustafa T, Rauf S, Razzaq A, Anwer J. Pulmonary function parameters among marble industry workers in Lahore, Pakistan. F1000Res 2021; 10:938.

4. Huntley CC, Nettleton K, Moore VC, Walters GI. Occupational interstitial lung disease. Medicine 2023; 51:845-850.

5. Joshi JM, Kolhe NV, Sundaram P. Pneumoconiosis. Postgrad Med J 1997; 73:513-518.

6. Crummy F, Carl I, Cameron CHS, Heaney LG. A possible case of pneumoconiosis in a limestone quarry worker. Occup Med (Lond) 2004; 54:497-499.

7. Flors L, Domingo ML, Leiva-Salinas C, Mazón M, Roselló-Sastre E, Villar J. Uncommon occupational lung diseases: high-resolution CT findings. AJR 2010; 194:W20-W26.

8. Shrivastava A, Tomar SP, Patel M. Prevalence of symptoms of occupational lung diseases in marble cutting workers. Int J Community Med Public Health 2018; 5:3368-3371.

 

IMAGENS

 


Figura 1: Radiografias de tórax, em incidência posteroanterior (A) e perfil (B), demonstram consolidações alveolares difusas nos lobos superiores associadas a aumento dos hilos pulmonares.

 


Figura 2: TC de tórax com contraste, cortes coronais, janela pulmonar (A) e janela de mediastino (B), denota o predomínio das consolidações nos campos pulmonares médios e superiores.

 

 


Figura 3: TC de tórax de alta resolução, corte axial, janela pulmonar, mostra múltiplos nódulos e micronódulos, de distribuição randômica, por vezes com distribuição perilinfática.

 

 


Figura 4: Mesma janela pulmonar, cortes axiais (A e B), enfoque nos achados de bandas parenquimatosas, espessamento septal liso (setas) e áreas de aprisionamento aéreo (asteriscos), essas mais notadamente em bases pulmonares.

 

 


Figura 5 A e B: Cortes axiais do mesmo estudo, janela de mediastino, com destaque para as linfonodomegalias mediastinais associadas, heterogêneas e confluentes, com pequenas calcificações de permeio (setas).

Artigo recebido em sábado, 17 de maio de 2025

Artigo aprovado em domingo, 14 de setembro de 2025

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