Rafael Jordão Oliveira1; Alice Silveira Modelo Gesto Pinto1; Melina Jordão Oliveira2; Pedro Miguel Moraes Saad1
DOI: 10.5935/2965-1980.v4e20250063
Resumo
Lesões focais ósseas são achados comuns no dia a dia do médico radiologista. Sendo assim, é essencial que o profissional seja capaz de identificar sinais de agressividade e distingui-los dos achados encontrados nas lesões típicas de “dont touch lesions”, também conhecidas como “leave alone lesions”, que dispensam prosseguimento diagnóstico.
HISTÓRICO CLÍNICO
Paciente do sexo masculino, 45 anos, servidor público, realizou tomografia computadorizada (TC) de abdome e pelve, sem contraste endovenoso, para acompanhamento de litíase ureteral.
ACHADOS RADIOLÓGICOS
A TC de abdome e pelve sem contraste endovenoso, demonstrou lesão de aspecto lítico, insuflante, intramedular no colo e diáfise proximal do fêmur direito, com margem esclerótica, associada a focos em vidro fosco e outros escleróticos de permeio e não possui sinais de rotura da cortical ou componente de partes moles, característico de displasia fibrosa. Em comparação à TC de abdome e pelve prévia, realizada pelo paciente em 2019, também sem contraste endovenoso, a lesão segue sem alterações significativas.
DISCUSSÃO
As lesões ósseas benignas com características típicas em exames de imagem, como as “don’t touch lesions” descritas por Helms [1], dispensam exames adicionais. São achados frequentes e devem ser reconhecidas para evitar procedimentos invasivos desnecessários [2]. As lesões conhecidas como “don’t touch” são a displasia fibrosa, desmoide cortical, cistos subcondrais, costocondrite (síndrome de Tietze), ilhotas ósseas, fibroma não ossificante, cisto ósseo simples, cisto ósseo aneurismático, infarto ósseo, cisto de herniação sinovial, melorreostose, hemangiomas vertebrais, esclerose vertebral discogênica, lesões pós-traumáticas como miosite ossificante e variantes anatômicas como pseudocisto umeral [3]. Nota-se que estas lesões não se alteram significativamente com a passagem do tempo, não se notando mudanças entre elas comparando exames antigos e atuais. A displasia fibrosa, achado incidental no fêmur proximal direito do paciente do caso clínico descrito, engloba alterações do desenvolvimento ósseo mais comuns em diáfise e metáfise de ossos longos, mas também encontradas em ossos craniofaciais, costelas e quadris, caracterizadas por matriz fibrosa e tecido ósseo localizados mais frequentemente na medular óssea de crianças e adultos jovens. Pode ser do tipo monostótica ou poliostótica, comprometendo um único osso ou dois ou mais, respectivamente, estando presente mais comumente nesta última dor, assimetria focal, deformidades ósseas e fraturas patológicas pela maior suscetibilidade devido a perda da arquitetura óssea habitual [3], além de possíveis associações sindrômicas, como síndrome de McCune-Albright e síndrome de Mazabraud. A aparência nos exames de imagem depende da proporção entre a matriz fibrosa e o tecido ósseo, sendo os principais achados de imagem típicos o padrão em “vidro fosco”, o qual decorre da perda e/ou rarefação da trabeculação habitual do osso, as margens mal definidas, a expansão óssea e a ausência de reação periosteal. Seus principais diagnósticos diferenciais de imagem são o cisto ósseo simples e infarto ósseo, uma vez que, em alguns casos, a displasia fibrosa, principalmente quando em processo de consolidação, pode mimetizar ambos. Porém, a presença da expansão óssea e da esclerose central, bem como, a ausência do padrão serpiginoso e de conteúdo líquido facilitam as suas diferenciações. São mais comumente diagnosticadas em achados incidentais em exames de imagens, como raio X, tomografia computadorizada ou ressonância magnética, entretanto, podem ser o foco do exame no caso de manifestação sintomática ou percepção pelo paciente
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS
Cisto ósseo simples;
Infarto ósseo.
Displasia Fibrosa Óssea.
O QUE EU APRENDI COM ESSE CASO
A identificação correta de uma “don’t touch lesion” evita intervenções desnecessárias como exposição à radiação, biópsias ou cirurgias, bem como notícias que causem preocupações excessivas no paciente. Sendo assim, é essencial que o profissional, mesmo não sendo especialista na área musculoesquelética, seja capaz de identificar características de agressividade em imagens e reconhecer padrões típicos de lesões não agressivas, como as “don’t touch lesions”, as quais podem ser conduzidas com segurança sem necessidade de investigação adicional.
REFERÊNCIAS
1. Helms CA. Don’t touch lesions. In: Helms CA, editor. Fundamentals of Skeletal Radiology. 3rd ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2005;
2. Mhuircheartaigh JN, Lin YC, Wu JS. Bone tumor mimickers: a pictorial essay. Indian J Radiol Imaging. 2014;24(3):225–236;
3. Fonseca EKUN, Castro ADAE, Kubo RS, Miranda FC, Taneja AK, Santos DDCB, et al. Musculoskeletal “don’t touch” lesions: pictorial essay. Radiol Bras. 2019;52(1):48–53.
IMAGENS




Figura 3: TC sem contraste endovenoso, no plano sagital, destacando o aspecto lítico da lesão (seta).
Artigo recebido em domingo, 23 de março de 2025
Artigo aprovado em sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Todos os artigos científicos publicados em brad.org.br são licenciados sob uma licença Creative Commons.