• ISSN (On-line) 2965-1980

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Gastrointestinal

Pancreatite aguda associada ao uso de semaglutida relato de caso

Marcos Vinícius Fonseca Noronha1,2; Luis Ronan Marquez Ferreira de Souza3

DOI: 10.5935/2965-1980.v4e20250087

Resumo

Paciente do sexo feminino, 50 anos, com dor abdominal persistente e elevação de enzimas pancreáticas há 3 dias. Fez uso prolongado de semaglutida. Ultrassonografia e colangiorressonância evidenciaram leve dilatação ductal e pequeno líquido peripancreático. Os achados, associados à história clínica, sustentam o diagnóstico de pancreatite aguda relacionada à medicação.

HISTÓRICO CLÍNICO

Paciente do sexo feminino, 50 anos, com quadro de dor no andar superior do abdome há 1 dia, sem outros sintomas. Relata que já fez uso de Saxenda por dois anos há oito anos, e, atualmente, faz uso de 0,5 mg de Ozempic há 1 ano e 8 meses uma vez por semana, referindo perda de 9 kg no último ano. Nega etilismo ou uso de outras substâncias. Nega história de doenças autoimunes. Nega HAS, DM ou outras doenças. Exames laboratoriais: Amilase 1.091 U/L, com queda no dia seguinte para 582 U/L; TGO, TGP, Gama GT e DHL normais; FA pouco elevada (148,7 U/L). Demais exames sem alterações. Foi solicitada avaliação ultrassonográfica e posteriormente colangiorressonância que evidenciou alterações leves relacionadas a pancreatite, provavelmente atribuída ao uso da semaglutida [1-3]. Assim, seu tratamento com semaglutida foi interrompido e ela recebeu alta para casa após a resolução dos sintoma.

 

ACHADOS RADIOLÓGICOS

A ultrassonografia do abdome total evidenciou: esteatose hepática; ausência de cálculos na vesícula biliar, pâncreas homogêneo e sem espessamento pancreático evidente, mas com leve dilatação do ducto pancreático principal (Wirsung), medindo aproximadamente 2,5 mm em sua porção do corpo do pâncreas (Figura 1A). Esse valor encontra-se no limite superior esperado para a faixa etária (US < 2,5 mm; RM até 2,0 mm no corpo pancreático) [4]. Demais achados sem alterações específicas. A colangiorressonância evidenciou o pâncreas de morfologia preservada, porém de dimensões levemente aumentadas, com parênquima homogêneo. Identificou-se pequena quantidade de líquido peripancreático estendendo-se para a fáscia lateroconal (Figura 2A), e dilatação cística de 0,5 cm na confluência dos ductos de Wirsung e Santorini (Figura 2B). Ausência de necrose ou áreas de realce anômalo (Figura 2C).

 

DISCUSSÃO

O diagnóstico da pancreatite aguda é baseado em achados clínicos e laboratoriais, mas a sua etiologia pode ser desafiadora. O papel do radiologista é crucial na identificação de sinais de gravidade e na identificação ou exclusão de algumas causas, tal como a presença de colelitíases ou na avaliação de traumas pancreáticos. Neste caso, os achados de imagem, em correlação com os dados clínicos, foram compatíveis com pancreatite intersticial leve, segundo a Classificação de Atlanta [5]. A ausência de fatores etiológicos comumente relacionados à pancreatite - como colelitíase, etilismo ou trauma -, bem como a inexistência de sinais sugestivos de pancreatite autoimune, associados ao histórico de uso prolongado de semaglutida, reforçaram a hipótese diagnóstica. Estudos recentes levantam possíveis mecanismos fisiopatológicos para explicar a associação entre agonistas do receptor de GLP-1 e pancreatite [6,7]. Entre eles, a estimulação crônica dos receptores pancreáticos, capaz de induzir hiperplasia ductal ou acinar; o aumento da secreção exócrina pancreática, que poderia levar a elevação da pressão intraductal; e ainda o retardo no esvaziamento gástrico, que altera o fluxo biliar e pancreático, predispondo ao processo inflamatório além disso, predisposições individuais (genéticas ou metabólicas) podem funcionar como cofatores para o desenvolvimento do quadro. Embora a relação causal entre semaglutida e pancreatite aguda ainda permaneça em investigação, metanálises recentes reforçam a necessidade de vigilância clínica Relatos de caso como o presente ampliam a suspeita diagnóstica e alertam radiologistas e clínicos sobre a importância da atenção a esse potencial efeito adverso, sobretudo na ausência de outras causas identificáveis.

 

DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS

• Pancreatite autoimune

• Úlcera péptica perfurada

• Pancreatite aguda idiopática

 

DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO

• Pancreatite aguda relacionada ao uso de Semaglutida

O QUE APRENDI COM ESSE CASO

A correlação entre o uso da semaglutida e o quadro de pancreatite, algo até então desconhecido por mim, só foi possível graças ao diálogo interdisciplinar, o que permitiu a suspensão precoce da medicação e evitou possíveis recorrências. Aprendi, assim, não apenas sobre uma importante associação farmacológica e seus possíveis mecanismos de ação, mas também reforça ainda mais a necessidade de comunicação e interação multidisciplinar, especialmente em tempos de telerradiologia, em que o distanciamento entre os profissionais pode dificultar a abordagem integrada do paciente.

 

REFERÊNCIA

1. WILDING, J. P. H.; BAIN, S. C.; MURRAY, S. R.; et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989-1002, 2021. doi:10.1056/NEJMoa2032183.

2. DAVIES, M.; FÆRCH, L.; JEPPESEN, O. K.; et al. Semaglutide 2.4 mg once a week in adults with overweight or obesity, and type 2 diabetes (STEP 2): a randomised, double-blind, double-dummy, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet, v. 397, p. 971-984, 2021. doi:10.1016/S0140-6736(21)00213-0.

3. U.S. Food and Drug Administration (FDA). Drug Safety Communication: FDA evaluating reports of pancreatitis in patients taking GLP-1 receptor agonists. 2023. Available at: https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-and-availability

4. MÖLLER, K.; JENSSEN, C.; IGNEE, A.; HOCKE, M.; FAISS, S.; IGLESIAS-GARCIA, J.; SUN, S.; DONG, Y.; DIETRICH, C. F. Pancreatic duct imaging during aging. Endoscopic Ultrasound, v. 12, n. 2, p. 200-212, 2023. doi:10.4103/EUS-D-22-00119.

5. BANKS, P. A.; BOLLEN, T. L.; DERVENIS, C.; et al. Classification of acute pancreatitis-2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut, v. 62, n. 1, p. 102-111, 2013. doi:10.1136/gutjnl-2012-302779.

6. Patel F, Gan A, Chang K, Vega KJ. Acute Pancreatitis in a Patient Taking Semaglutide. Cureus. 2023 Aug 19;15(8):e43773. doi: 10.7759/cureus.43773. PMID: 37731423; PMCID: PMC10506915.

7. MASSON, W.; LOBO, M.; BARBAGELATA, L.; LAVALLE-COBO, A.; NOGUEIRA, J. P. Acute pancreatitis due to different semaglutide regimens: An updated meta-analysis. Endocrinología, Diabetes y Nutrición, v. 71, n. 2, p. 124-132, 2024. doi:10.1016/j.endinu.2024.01.001.

 

IMAGENS

 


Figura 1A: Ultrassonografia de abdome evidencia ducto pancreático levemente ectasiado, medindo 2,5 mm no corpo do pâncreas.

 

 


Figura 2A: Ressonância magnética do abdome superior ponderada em T2 com saturação de gordura, mostra pequena quantidade de líquido livre adjacente a cauda pancreática que se estende para a fáscia lateroconal (setas)

 

 


Figura 2B: Colangiorressonância com reconstrução 3D ponderada em T2 mostra ectasia ductal e dilatação cística de 0,5 cm na confluência dos ductos de Wirsung e Santorini (seta).

 

 


Figura 2C: Ressonância Magnética do pâncreas ponderada em T1 com saturação de gordura, nas sequências após a administração de contraste na fase arterial, evidencia pâncreas com realce homogêneo e sem sinais de necrose.

Artigo recebido em quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Artigo aprovado em domingo, 23 de novembro de 2025

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