Kamila Mochizuki Schiavini1; Luis Ronan Marquez Ferreira de Souza2
DOI: 10.5935/2965-1980.2026v5e20260921
Abstract
Os tumores de Krukenberg são raros e a incidência é mais comum em países asiáticos devido à maior prevalência de câncer gástrico. As lesões são mais comumente bilaterais e císticas e podem ser confundidas com tumores ovarianos primários com sintomas inespecíficos podendo levar a confusão diagnóstica.
HISTÓRICO CLÍNICO
Feminino, 44 anos, com história de adenocarcinoma gástrico submetida à gastrectomia há 1 ano, apresentou dor abdominal intensa. No pronto-atendimento foi realizada uma tomografia computadorizada do abdome total (TC) a qual evidenciou volumosa lesão anexial esquerda. Foi solicitado RM da pelve e histopatológico onde constatou-se tratar de um caso de Tumor de Krukenberg.
ACHADOS RADIOLÓGICOS
A TC sem contraste (Figura 1) demonstrava lesão expansiva hipodensa retrouterina em íntimo contato com a serosa do reto médio. À ressonância magnética (RM) observava-se formação sólido-cística heterogênea, retrouterina com origem presumida no ovário esquerdo, em íntimo contato com o terço inferior ao ureter esquerdo e parede anterior do sigmoide (Figura 2). A lesão apresentava áreas sólidas nodulares de isossinal em T1 (Figura 3) com intensa impregnação pelo meio de contraste paramagnético (Figura 4), restrição à difusão (Figura 5).
DISCUSSÃO
Os tumores de Krukenberg são um subtipo específico de metástases ovarianas, caracterizados histologicamente pela presença de células em anel de sinete produtoras de mucina e por um estroma fibroso denso [1,2]. Eles representam cerca de 50% de todas as metástases ovarianas, sendo a maioria (80%) bilateral, diferente do caso apresentado que é unilateral (20% dos casos) [1,3]. Os sítios primários mais comuns são o estômago e o cólon, seguidos por apêndice, trato pancreatobiliar e mama (especialmente carcinoma lobular invasivo) [1]. Esses tumores ocorrem mais frequentemente em mulheres mais jovens (idade média de 48 anos), possivelmente devido à rica vascularização ovariana em idade reprodutiva. Os sintomas incluem dor abdominal ou pélvica, distensão, dispareunia e sangramento vaginal irregular. O prognóstico é geralmente ruim, com sobrevida média inferior a 2 anos, dependendo do sítio primário [1].
Na imagem de ultrassom pode-se notar massas sólidas, mistas ou císticas, com margens bem definidas e formação cística em "traça" (moth-eaten). O sinal do "vaso principal" (lead vessel sign) pode estar presente. Na TC, como mostrado no caso em questão, pode haver massas bilaterais sólidas ou mistas, com componentes císticos bem delimitados e realce das paredes [1,3]. A RM demonstra as características macroscópicas do tumor [4,5] os componentes sólidos hipointensos em T1 e T2 (devido ao estroma denso), com restrição à difusão e realce sendo as áreas císticas hiperintensas em T2 (mucina) [1,3] e o realce segue uma curva dinâmica do tipo 3 (washout), como mostrado no caso exemplificado. Os sinais radiológicos que nos permitem suspeitar desta patologia são o envolvimento bilateral dos ovários em paciente com histórico ou suspeita de neoplasia digestiva; massas ovoides de formato regular; presença de áreas císticas ou necróticas [3]. Os diagnósticos diferenciais são as neoplasias primárias de ovário e outras metástases não-Krukenberg (ex.: melanoma, linfoma, carcinoides). Marcadores imunohistoquímicos são essenciais: perfil CK7-/CK20+ ou CK7+/CK20+ sugerem origem gastrointestinal, enquanto CK7+/CK20- é sugestivo de tumor ovariano primário [1]. O caso descrito, teve como anatomopatológico da gastrectomia, o adenocarcinoma gástrico pouco diferenciado acometendo até a serosa com seis linfonodos perigástricos comprometidos. Na análise histopatológica e imunohistoquímica do ovário esquerdo da paciente, evidenciou-se padrão negativo para CK7 e positivo para CK20, confirmando, portanto, o diagnóstico de massa ovariana de origem metastática.
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS:
Neoplasias ovarianas primárias
Metástase de tumor carcinoide mucinoso
Tumor de Krukenberg
O QUE APRENDI COM ESTE CASO
A experiência com este caso de uma paciente jovem portadora de um carcinoma gástrico invasivo que se manifestou como uma massa anexial unilateral, posteriormente confirmada como tumor de Krukenberg, foi profundamente instrutiva. Ele desafiou o dogma clássico de que essa metástase é invariavelmente bilateral, reforçando que a suspeita deve permanecer alta mesmo diante de um achado unilateral, especialmente em mulheres jovens com histórico ou suspeita de carcinoma gastrointestinal. Este caso serviu como um alerta sobre a agressividade e a capacidade de apresentação atípica de neoplasias gastrointestinais em faixas etárias mais jovens, sublinhando a necessidade de uma abordagem investigativa e a inclusão de metástases ovarianas no diagnóstico diferencial de qualquer massa pélvica, quando houver qualquer suspeita clínica de uma síndrome paraneoplásica ou tumor primário oculto.
REFERENCES
1.Zulfiqar M, Koen J, Nougaret S, Bolan C, VanBuren W, McGettigan M, Menias C. Krukenberg Tumors: Update on Imaging and Clinical Features. AJR Am J Roentgenol. 2020;215(4):1020-1029.
2.Wong PC, Ferenczy A, Fan LD, McCaughey E. Krukenberg Tumors of the Ovary: Ultrastructural, Histochemical, and Immunohistochemical Studies of 15 Cases. Cancer. 1986;57(4):751-760.
3.Ha H, Baek S, Kim S, Kim H, Chung E, Yeon K. Krukenberg's Tumor of the Ovary: MR Imaging Features. AJR Am J Roentgenol. 19955;164(6):1435-1439.
4.Takemori M, Nishimura R, Obayashi C, Sugimura K. Magnetic resonance imaging of Krukenberg tumor from gastric cancer. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 1992;47(2):161-163.
5.Wagner IA, Paiva Junior TF. Tumor de Krukenberg em Longo Tempo de Remissão: Relato de Caso. Rev Bras Cancerol. 2025;71(2):e174926.
IMAGENS






Article receive on Tuesday, September 15, 2026
Artigo aprovado em Thursday, April 9, 2026
All scientific articles published at brad.org.br are licensed under a Creative Commons license.