Paulo Henrique Barros de Lima1; Mariana Barros Mendonça Figueirêdo2; Gustavo Fernandes de-Lima3; Julia Espíndola Guimarães4
DOI: 10.5935/2965-1980.2026v5e2026104
Resumo
Paciente jovem, usuário de drogas, internado por quadro agudo de dor abdominal e desconforto respiratório. Evoluiu com sangramento digestivo, rebaixamento do nível de consciência e choque. A tomografia computadorizada (TC) revela achados sugestivos de gastrite enfisematosa. Como medida, foi realizada intervenção cirúrgica por via laparoscópica.
HISTÓRICO CLÍNICO
Paciente do sexo masculino, 19 anos, usuário de crack, iniciou quadro de dor abdominal e dispneia. Evoluindo com sangramento digestivo, rebaixamento do nível de consciência e choque hipovolêmico. A tomografia sugeriu gastrite enfisematosa. Em função dos achados, foi submetido a gastrectomia em cunha por via laparoscópica.
ACHADOS RADIOLÓGICOS
A TC de abdome e pelve com uso de contraste endovenoso mostra hipocontrastação parietal e pneumatose na curvatura maior do estômago, inferindo sofrimento vascular. Associam-se focos pnemoperitônio adjacentes à margem esquerda do estômago, o que sugere perfuração (Figuras 1,2 e 3). Fígado de dimensões preservadas, com presença de aeroportia difusa no lobo esquerdo. Acentuada quantidade de líquido livre intra-abdominal (Figura 4). Baço com dimensões habituais, apresentando áreas de infarto (Figura 5). Observa-se hipocontrastação do tronco celíaco e dos seus ramos na fase portal, de avaliação limitada na ausência de aquisição arterial, não se podendo excluir insulto isquêmico. Aumento do conteúdo líquido difusamente nas alças de intestino delgado e grosso, com dilatação jejunal de até 4,0 cm, sem sinais de obstrução. Densificação difusa dos planos subcutâneos, inferindo edema (Figura 6).
DISCUSSÃO
A gastrite enfisematosa é uma condição rara e grave, com mortalidade elevada (até 61%), frequentemente associada a fatores de risco como imunossupressão, diabetes, uso de drogas (incluindo crack), abuso de álcool e lesão mucosa gástrica. O uso de crack, em particular, pode precipitar isquemia gástrica por vasoconstrição intensa, facilitando a invasão da parede gástrica por microrganismos produtores de gás [1,3]. Os microrganismos mais frequentemente envolvidos são predominantemente bactérias gasogênicas, incluindo Streptococcus spp., Escherichia coli, Enterobacter spp., Clostridium perfringens, Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa [2]. A fisiopatologia envolve invasão transmural da parede gástrica por esses agentes, geralmente após lesão mucosa ou evento isquêmico, levando à formação de gás intramural, necrose e risco de perfuração [1,3]. O diagnóstico é estabelecido principalmente por TC, que representa o método mais sensível para detectar gás intramural gástrico, além de permitir avaliação da extensão do comprometimento, presença de perfuração, pneumoperitônio, gás portal e complicações associadas, sendo fundamental para diferenciar gastrite enfisematosa de outras causas de gás gástrico, como enfisema gástrico benigno ou mimetizadores pós-intervenção [4-6]. Em pacientes imunossuprimidos, os achados clínicos e laboratoriais podem ser inespecíficos, tornando a TC abdominal o exame de escolha para confirmação diagnóstica e avaliação da gravidade [1,7-8]. A identificação precoce da gastrite enfisematosa é crucial, pois o tratamento envolve suporte intensivo, antibióticos de amplo espectro e, em casos refratários, intervenção cirúrgica [9].
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS
Isquemia gástrica secundária à vasoconstrição por cocaína/ crack;
Úlcera péptica perfurada;
Gastrite necrosante (flegmonosa).
O QUE APRENDI COM ESTE CASO
Esse caso reforça a necessidade de suspeição precoce em populações de risco e a centralidade da tomografia no diagnóstico, uma vez que a identificação de sinais como gás intramural, necrose ou perfuração é determinante para o prognóstico dessa condição potencialmente fatal. Como frequentemente é o primeiro a sugerir o diagnóstico, o radiologista deve correlacionar os achados com o contexto clínico, considerar diagnósticos diferenciais e orientar, a partir disso, o manejo intensivo e a intervenção cirúrgica precoce quando indicada.
REFERÊNCIAS
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9. Emphysematous Gastritis: The Silent Storm Within the Stomach Wall. Aggarwal CS, Dahiya S, Kochhar S, et al. The Journal of International Medical Research. 2025;53(10):3000605251389384. doi:10.1177/03000605251389384.
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Artigo recebido em quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Artigo aprovado em terça-feira, 7 de abril de 2026
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