• ISSN (On-line) 2965-1980

Artigo

Acesso livre Revisado por pares

0

Visualizações

Gastrointestinal

Sindrome da Artéria Mesentérica Superior com Fenômeno de Quebra Nozes - Relato de Caso

Cibelle Ingrid Estevão de Melo1; Luara Lis Barbosa Boson2; Luiz Felipe de Oliveira Santos3; Roger Vinicius Ancillotti Filho4

DOI: 10.5935/2965-1980.2026v5e2026100

Resumo

A síndrome da artéria mesentérica superior, ou síndrome de Wilkie, caracteriza-se pela obstrução, parcial ou completa, da terceira porção do duodeno pela artéria mesentérica superior. Seu diagnóstico é baseado na clínica e evidências radiológicas de obstrução duodenal, e o padrão-ouro para diagnóstico é a tomografia computadorizada.

HISTÓRICO CLÍNICO

Paciente de 14 anos, com quadro de dor abdominal, foi atendida em unidade de emergência de hospital terciário, e solicitadas radiografias de tórax e abdome em decúbito e ortostase, com indicação de abdome agudo. Em seguida, foi realizada tomografia computadorizada (TC) de abdome com contraste.

 

ACHADOS RADIOLÓGICOS

As radiografias de tórax e abdome em pé e deitado evidenciaram distensão gástrica (Figuras 1 e 2). Foi realizada TC de abdome com contraste, que evidenciou redução acentuada do ângulo aortomesentérico (19,53º) (Figura 3), compressão da terceira porção do duodeno pela artéria mesentérica superior, com medida da distância entre aorta e artéria mesentérica superior de 3 mm (Figura 4) e acentuada distensão do duodeno e estômago à montante (Figura 5); compressão da veia mesentérica superior pelo estômago dilatado; compressão da veia renal esquerda com dilatação à montante, associada a ectasia da veia gonadal esquerda e varizes pélvicas esquerdas (Figura 6), fenômenos associados à redução do ângulo aortomesentérico.

 

DISCUSSÃO

A síndrome da artéria mesentérica superior, ou síndrome de Wilkie, caracteriza-se pela obstrução, parcial ou completa, da terceira porção do duodeno pela artéria mesentérica superior. Essa compressão leva a sintomas de obstrução intestinal superior, incluindo saciedade precoce, vômitos recorrentes e distensão abdominal [1,2]. A primeira descrição da síndrome foi feita por Von Rokitansky em 1842 [3]. Mais tarde, Wilkie descreveu a primeira série de casos em 1927 [4]. Até o ano de 2022, cerca de 2400 casos desta síndrome haviam sido publicados [5]. A mediana de idade é 23 anos, mas qualquer idade pode ser afetada, com aumento da incidência em pacientes mais velhos na literatura recente [5]. As maiores causas da síndrome envolvem acentuada perda de peso corporal, como em pacientes com anorexia nervosa, resultando em perda de tecido gorduroso mesentérico entre a aorta e a artéria mesentérica superior, o que torna o ângulo mais estreito entre estes vasos [5,6]. O diagnóstico é baseado nos sintomas clínicos e apoiado em evidências radiológicas de obstrução duodenal. Os critérios tradicionais são baseados em estudos de radiografia baritados. No entanto, o padrão-ouro para diagnóstico é a angioTC, que permite tanto o diagnóstico da síndrome com as medidas do ângulo entre a artéria mesentérica superior e a aorta, além de detectar complicações, como necrose gástrica, aeroportia e pancreatite aguda [7]. Em estudos angiográficos anteriores, verificou-se uma diminuição do ângulo aorto-mesentérico até cerca de 7-22º (sendo considerados normais valores compreendidos entre 38-56º), assim como a diminuição da distância entre estas estruturas até 2-8 mm (sendo o normal 10-28 mm) [8-10]. No nosso caso, nós observamos um ângulo aortomesentérico de 19,53º e a distância entre as estruturas medindo 3 mm. O tratamento para a síndrome de Wilkie pode ser conservador com mudanças na dieta, suporte nutricional para ganho de peso e medicações sintomáticas. Quando ocorre falha no manejo conservador, a intervenção cirúrgica é necessária, e a duodenojejunostomia é a modalidade cirúrgica de escolha [11,12]. Por sua vez, a síndrome de quebra nozes consiste na compressão da veia renal esquerda pela artéria mesentérica superior em sua passagem entre esta e a aorta abdominal. Apesar de comumente utilizados como sinônimos, o uso de "síndrome" deve se limitar às ocasiões em que o paciente apresente sintomas. "Fenômeno", por sua vez, deverá ser empregado em casos de pacientes assintomáticos [13].

 

DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS

• Hérnia interna;

• Tumores duodenais;

• Torção intestinal.

 

O QUE APRENDI COM ESTE CASO?

Reconhecer os critérios diagnósticos e achados radiológicos das síndromes da artéria mesentérica superior e de quebra nozes, ambas de apresentação rara, porém cujo diagnóstico tardio pode trazer complicações.

 

REFERÊNCIAS

1. Lukes PJ, Rolny PJL, Nilson AE. Diagnostic value of hypotonic duodenography in superior mesenteric artery syndrome. Acta Chir Scand. 1978;144:39-43.

2. Rathod T, Ved YP, Jain D, Patel A. Delayed presentation of Wilkie's syndrome after scoliotic curve correction surgery: a case report. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25(1):329.

3. Von Rokitansky C. Handbuch der pathologischen Anatomie. 1st ed. Vienna: Branmuller and Seidel; 1842. p. 187.

4. Wilkie DP. Chronic duodenal ileus. Am J Med Sci. 1927;173:787-794.

5. Oka A, Awoniyi M, Hasegawa N, Yoshida Y, Tobita H, Ishimura N, Ishihara S. Superior mesenteric artery syndrome: diagnosis and management. World J Clin Cases. 2023 May 26;11(15):3369-3384. doi:10.12998/wjcc.v11.i15.3369. PMID:37383896; PMCID:PMC10294176.

6. Fernández López M, López Otero M, Bardasco Alonso M, Álvarez Vázquez P, Rivero Luis M, López Barros G. Síndrome de Wilkie: a propósito de un caso. Nutr Hosp. 2011;26(3):646-649.

7. Raman SP, Neyman EG, Horton KM, Eckhauser FE, Fishman EK. Superior mesenteric artery syndrome: spectrum of CT findings with multiplanar reconstructions and 3-D imaging. Abdom Imaging. 2012;37:1079-1088. doi:10.1007/s00261-012-9852-z. PMID:22327421.

8. Gustafsson L, Falk A, Lukes PJ, Gamklou R. Diagnosis and treatment of superior mesenteric artery syndrome. Br J Surg. 1984;71:499-501.

9. Mansberger AR Jr, Hearn JB, Byers RM, Fleisig N, Buxton RW. Vascular compression of the duodenum. Emphasis on accurate diagnosis. Am J Surg. 1968;115:89-96.

10. Pourhassan S, Grotemeyer D, Fürst G, Rudolph J, Sandmann W. Infrarenal transposition of the superior mesenteric artery: a new approach in the surgical therapy for Wilkie syndrome. J Vasc Surg. 2008;47(1):201-204.

11. Al Faqeeh AA, Syed MK, Ammar M, Almas T, Syed S. Wilkie's syndrome as a rare cause of duodenal obstruction: perspicacity is in the radiological details. Cureus. 2020;12(9):e10452.

12. Chrysikos D, Troupis T, Tsiaoussis J, Sgantzos M, Bonatsos V, Karampelias V, et al. Superior mesenteric artery syndrome: a rare case of upper gastrointestinal obstruction. J Surg Case Rep. 2019;2019(3):rjz054.

13. Macedo GL, Santos MA, Sarris AB, Gomes RZ. Diagnóstico e tratamento da síndrome de quebra-nozes (nutcracker): revisão dos últimos 10 anos. J Vasc Bras. 2018 Jul;17(3):220-228. doi:10.1590/1677-5449.012417.

 

IMAGENS


Figura 1 - Radiografia de tórax evidenciando distensão gástrica (seta amarela).

 

 


Figura 2 - Radiografia de abdome evidenciando distensão gástrica (seta amarela).

 

 


Figura 3 - Corte sagital de tomografia de abdome contrastada com medida do ângulo aortomesentérico (19,53º) (seta amarela).

 

 


Figura 4 - Corte axial de tomografia de abdome contrastada com medida da distância entre aorta e artéria mesentérica superior (3 mm) (seta amarela).

 

 


Figura 5 - Corte coronal de tomografia de abdome contrastada evidenciando importante distensão gástrica (seta amarela) e varizes pélvicas (círculo amarelo).

 

 


Figura 6 - Corte axial de tomografia de abdome contrastada evidenciando varizes pélvicas (círculo amarelo).

Artigo recebido em sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Artigo aprovado em quinta-feira, 9 de abril de 2026

CCBY Todos os artigos científicos publicados em brad.org.br são licenciados sob uma licença Creative Commons.

All rights reserved 2022 / © 2026 Bradcases DESENVOLVIDO POR